Vai mais uma? Indústria cervejeira na Alemanha tem origem judaica

Vai mais uma? Indústria cervejeira na Alemanha tem origem judaica

A Oktoberfest, festa em celebração à cultura da cerveja, em Munique, Alemanha, é visitada anualmente por 6 milhões de pessoas. Certamente, poucas delas sabem que a origem da indústria cervejeira na Alemanha é judaica.
 
A produção da bebida, que é associada ao gosto e ao sentimento da verdadeira cultura alemã, dependeu por séculos do árduo trabalho de um grupo de judeus alemães, fundamentais na construção do império da cerveja antes da Segunda Guerra Mundial.
 
“Sempre encontramos conexões entre judeus e cerveja em nossas pesquisas”, afirma Bernhard Purin, diretor do Museu Judaico de Munique, ao Tablet Magazine.
 
Em 2016, a Alemanha celebrou os 500 anos da lei de pureza da cerveja, e Purin concluiu que seria uma boa ocasião para mostrar a importante participação judaica na história.
 
Ele montou a exposição “Cerveja é o vinho dessa terra: história das cervejarias judaicas”, que contou a saga dos cervejeiros judeus, os quais ajudaram a erguer a indústria até a tomada de poder pelos nazistas. Saiba mais
 
O envolvimento dos judeus com a cerveja se iniciou no período renascentista. A padronização da produção pela lei de pureza causou um grande aumento no preço do lúpulo, fazendo com que muitos produtores judeus abandonassem a produção, uma vez que a lei coincidiu com a expulsão dos judeus das grandes cidades alemãs.
 
Os judeus foram proibidos de produzir cerveja, mas não de comercializar o lúpulo. Do século 15 até a Alemanha nazista, a indústria de lúpulo foi controlada por judeus.
 
“Era praticamente um negócio judaico”, conta Purin. A influência judaica no ramo era tamanha, que o comércio de lúpulo parava entre setembro e outubro, por causa das Grandes Festas judaicas.
 
Por séculos, os judeus foram proibidos de produzir cerveja na Alemanha, mas isso mudou em 1868, quando foi instituído o status de igualdade para os judeus. Uma vez liberados, eles não somente se integraram à indústria cervejeira, como a modernizaram.
 
“Os judeus na Alemanha foram muito bem-sucedidos em períodos de modernização e entraram no momento certa nessa indústria”, conta Purin.
 
Um exemplo foi Jakob von Hirsch, primeiro barão judeu da região da Bavária. Ele estabeleceu a Cervejaria Castelo Planegg, que iniciou sua produção em 1836, tornando-se a primeira instalação industrial do ramo, quando as outras estavam presas aos pequenos espaços das cidades. Os nazistas tomaram usaram suas instalações para armazenar equipamentos médicos no período da guerra.
 
Uma das maiores e mais bem-sucedidas cervejarias alemãs da atualidade, Löwenbräu, foi fundada no século 19 por Moritz Guggenheimer, que aproveitou a expansão das linhas férreas na Alemanha e das rotas de transporte internacionais, transformando a marca na maior cervejaria de exportação de Munique.
 
Durante a Segunda Guerra Mundial, a produção de cerveja era controlada, e os diretores judeus das indústrias de cerveja foram obrigados a renunciar a seus cargos. As empresas foram então “arianizadas”, tomadas de seus donos judeus e vendidas.
 
Os pesquisadores também descobriram que as canecas metálicas decoradas, vendidas como suvenir em Munique, foram inventadas por jovens judeus. Um dos objetivos da exposição era justamente mostrar uma dessas canecas, que traz como adorno uma Estrela de David.
 
A estrela de seis pontas é comumente encontrada nos símbolos de cervejarias alemãs. Durante o Holocausto, os cervejeiros alemães, receosos, resolveram tirar uma das pontas da estrela, mas voltaram ao símbolo original com o fim da guerra.
 
Em 1945, duas das principais famílias da indústria de lúpulo, os Fromms e os Steiners, retornaram à Alemanha. Em 1960, Fromm desenvolveu um pó de lúpulo, que revolucionou o processo de produção da cerveja.
 
Algumas das primeiras famílias judias envolvidas na indústria cervejeira alemã conseguiram escapar do Holocausto, levando sua expertise para os Estados Unidos.
 
Em 1935, Herman Schülein fugiu para Nova York com sua família e se tornou diretor da famosa cervejaria do Brooklyn, a Rheingold Brewery, fundada por outra família judaica que emigrou para lá por volta de 1800.
 
O ápice da popularidade dessa cervejaria se deu entre as décadas de 1940 e 1960, quando a Rheingold se tornou a cerveja oficial do time de baseball New York Mets, mostrando que os judeus influenciaram muito mais do que somente a cultura da cerveja alemã.
 
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