The Economist destaca renascimento do iídiche na música e na literatura

The Economist destaca renascimento do iídiche na música e na literatura

 Se você pegar o metrô em Nova York, às vezes ouvirá grupos de mulheres judias conversando baixinho. De longe, parecem estar falando alemão, talvez hebraico. Na verdade, elas estão conversando em iídiche, uma língua que já foi falada por mais de 10 milhões de pessoas.

 
As guerras do século 20 mudaram isso, e apenas um milhão de falantes permanecem. Mas, apesar de todas as catástrofes perpetradas contra seus falantes, o iídiche tem resistido. Na verdade, passa por um renascimento, afirma a revista britânica The Economist.
 
O iídiche era primeiramente falado na Idade Média por judeus que viviam na região do rio Reno [atual Alemanha]. Escrito com o alfabeto hebraico, compartilha com ele muitos termos. Sua variante do leste europeu, onde a maioria dos falantes da língua vivia, também pega emprestado palavras das línguas eslavas. Práven, uma palavra derivada do verbo eslavo "celebrar", pode ser usada em iídiche para denotar qualquer ocasião feliz.
 
Essa diversidade dá ao iídiche um vocabulário incrivelmente sutil. A língua tem três palavras diferentes para "importante", originadas do alemão, do hebraico e das línguas eslavas. A derivada do hebraico é mais relacionada à importância humana e social, enquanto que nas línguas eslavas ela tem um tom mais íntimo. Essa vibração, além disso, ajudou a espalhar o chasidismo, um movimento de retomada da cultura judaica que usou o iídiche em seus escritos religiosos.
 
Mas o iídiche não se afastou da vida moderna. Por volta de 1850, surgiu uma literatura secular e vibrante. Autores como Mendele Mocher Sforim e Sholem Aleichem escreveram sobre os problemas da vida judaica da contemporaneidade, como a pobreza, o antissemitismo e a religião num mundo em mudança. Suas histórias nos deixaram personagens memoráveis: pequenos ladrões, músicos itinerantes e Tevye, o leiteiro, posteriormente imortalizado no filme "Um violinista no telhado".
 
O iídiche também foi usado para fins políticos. Organizações socialistas judaicas do início do século 20, como o Bund, popular em toda a Europa Oriental, incentivaram a educação em iídiche. Fizeram isso em oposição aos sionistas, cujo apoio ao hebraico e à emigração para a Palestina os participantes do movimento viam como "utópicos".
 
Apesar de toda sua riqueza, grande parte da cultura iídiche foi destruída em poucos anos. Antes da Segunda Guerra Mundial, a população que falava iídiche era estimada em 13 milhões. Mas os nazistas assassinaram seis milhões de judeus, 85% dos quais falavam iídiche. Muitos dos sobreviventes fugiram para Israel, mas o novo Estado judeu desencorajou o iídiche. Os sionistas viam como língua única do povo judeu o hebraico; o iídiche foi rejeitado por sua associação com as vítimas subjugadas pelo Holocausto. Ao mesmo tempo, os judeus que emigraram para os EUA desdenharam o idioma para facilitar sua integração à nova sociedade.
 
Após a Segunda Guerra Mundial o iídiche parecia condenado ao esquecimento, mas renasceu. Em 1978, Isaac Bashevis Singer ganhou o prêmio Nobel de Literatura, levando a uma revalorização da escrita em iídiche de forma mais geral. Hoje em dia, muitos judeus consomem avidamente as obras-primas da literatura iídiche, tanto no original como na tradução. Muitas universidades oferecem programas de literatura iídiche, como a USP, Oxford e Columbia.
 
A música tradicional iídiche está renascendo também. Músicos relembram as canções radicais do Bund. Adrienne Cooper, cantora iídiche que morreu em 2011, produziu um álbum de músicas cantadas durante o Holocausto. Em uma canção, ela canta uma música de ninar escrita no gueto de Lodz.
 
Há também a utilização do iídiche em canções mais recentes. Kahn cantou "Aleluia" de Leonard Cohen em iídiche. O cantor Anthony Russell combina canções folclóricas em iídiche com espiritualidades afro-americanas. Escritores como Dov Ber Kerler publicaram vários livros de poesia iídiche. Em 2009, com o apoio da UNESCO, vários escritores de iídiche reuniram-se em Jerusalém para recitar o seu trabalho. "Vaybertaytsh" é um podcast para as feministas de fala iídiche.
 
Apesar do passado socialista radical da língua, alguns dos trabalhos mais inovadores em iídiche vêm da comunidade ultraortodoxa. Nesse grupo, as famílias preservaram o idioma de seus antepassados. Lipa Schmeltzer, um judeu ultraortodoxo de Nova York, combina batidas de música pop com letras sobre rabinos. Essa mistura ficou muito popular: Schmeltzer lançou mais de dez álbuns e é conhecido como “Lady Gaga chassídica".
 
O Estado de Nova York se provou ser um reduto da língua, com mais de 100 mil falantes (são 600 mil no mundo). Em algumas comunidades ultraortodoxas, 93% da população fala iídiche. O Yiddish Forward, fundado em 1897 em Nova York, ainda publica artigos na língua. É certo que muitos judeus de Nova York se esqueceram do iídiche, mas a língua marca presença por meio de várias palavras e expressões utilizadas no dia a dia.
 
Enquanto os nova-iorquinos tiverem chutzpá, a língua sobreviverá.