Rabino Schlesinger analisa visita do papa a Israel

Rabino Schlesinger analisa visita do papa a Israel

Em seu texto, Michel Schlesinger, rabino da Congregação Israelita Paulista e representante da Conib para o diálogo inter-religioso, aborda a grande revolução teológica iniciada por João XXIII há 50 anos e o forte simbolismo de cada visita papal a Israel. Leia:

“A ida de um papa a Israel é muito mais significativa do que uma visita a qualquer outra parte do mundo. Isso porque se desenvolveu, dentro do cristianismo, a noção de que Deus haveria abandonado sua aliança com o Povo de Israel e adotado os cristãos como os legítimos seguidores do pacto celebrado com os patriarcas e matriarcas do Antigo Testamento.

Dentro desta noção teológica, a destruição do Segundo Templo de Jerusalém no ano 70 da Era Comum e a expulsão dos judeus da Palestina dominada pelo Império Romano se justificariam como castigo contra aquele povo, por sua recusa em aceitar Jesus como messias.

Tal visão, conhecida como Teologia da Substituição, motivou o desprezo de líderes cristãos de diferentes épocas em relação aos judeus e motivou campanhas de perseguição religiosa.

O papa que deu o passo mais importante na reaproximação de católicos e judeus no século 20 não visitou Israel. João XXIII inaugurou o Concílio Vaticano Segundo em 1962, iniciando um processo que levaria a uma verdadeira revolução nas relações entre a Igreja e a comunidade judaica internacional. Graças à iniciativa do “papa bom”, como era conhecido Angelo Guiseppe Roncalli, quase 2.000 anos de relações conturbadas foram transformadas em cinco décadas de aproximação e respeito.

Depois da morte de João XXIII, em junho de 1963, coube a seu sucessor, o papa Paulo VI, a sequência dos trabalhos. Ainda antes de concluir o Concílio, Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montini seria o primeiro papa a visitar o moderno Estado de Israel.

Numa época em que o papa raramente deixava a cidade de Roma, quando o fazia não saia da Itália, e se o fizesse, não seria para fora da Europa, Paulo VI foi o primeiro papa a viajar de avião e, em 1964, visitou o Oriente Médio.

No ano seguinte, o Concílio Vaticano Segundo terminou, e a declaração Nostra Aetate foi publicada. Naquele documento, no quarto parágrafo, se lê: “Sendo assim tão grande o patrimônio espiritual comum aos cristãos e aos judeus, este sagrado Concílio quer fomentar e recomendar entre eles o mútuo conhecimento e estima, os quais se alcançarão, sobretudo por meio dos estudos bíblicos e teológicos e com os diálogos fraternos.”

O papa João Paulo I não teve a oportunidade de viajar a Israel porque permaneceu como bispo de Roma por apenas 33 dias, quando faleceu.

Seu sucessor, o papa João Paulo II, estreitou as relações católico-judaicas com gestos profundamente representativos.  Pela primeira vez, um papa visitou a Grande Sinagoga de Roma, conduziu uma cerimônia em memória às vítimas do Holocausto dentro do Vaticano e estabeleceu relações diplomáticas plenas com o Estado de Israel em 1993.

No ano 2000, Karol Wojtyla foi o primeiro papa a visitar Israel oficialmente. Naquela ocasião, esteve no Yad VaShem, o Museu do Holocausto de Jerusalém, e rezou junto ao Muro das Lamentações em uma viagem que contou com uma grande cobertura da imprensa.

Algumas dessas iniciativas positivas foram replicadas por Bento XVI, embora seu papado também tenha experimentado momentos de tensões pontuais com a comunidade judaica. A reintegração do bispo lefebvriano Richard Williamson foi amplamente criticada, inclusive por líderes de fora da comunidade judaica, por ele haver mitigado a importância do Holocausto ao afirmar que teriam morrido “apenas” 300 mil judeus, e não seis milhões, e que as câmaras de gás nunca haviam existido. O hoje emérito Joseph Aloisius Ratzinger esteve em Israel em 2009.

Quando um papa visita a Terra Santa, ele reforça a mensagem de que os cristãos não substituíram a aliança de Deus com Israel. A ideia de que existem diversas alianças legítimas e de que uma não substitui a outra é reforçada cada vez que um papa pisa em solo israelense.

O papa atual tem uma história de amizade com a comunidade judaica portenha enquanto foi cardeal arcebispo de Buenos Aires. A visita de Francisco a Israel celebra o cinquentenário da visita de Paulo 6º e reafirma o seu compromisso com o pluralismo religioso. Bergoglio é o quarto papa a visitar Israel e o fez junto com um muçulmano e um judeu de sua terra natal. Esta é uma mensagem inequívoca de diálogo entre as três religiões que enxergam em Abraão seu patriarca comum.

Quando visitou Israel pela primeira vez, há 40 anos, o jovem Jorge Mario Bergoglio não pôde sair do Hotel American Colony, porque a Guerra do Iom Kipur havia eclodido. Numa época em que vozes do fanatismo ainda encontram espaço em todos os grupos religiosos, a visão de um rabino, um sheikh e o líder máximo da comunidade católica andando juntos na terra que é sagrada para as três religiões é uma importante mensagem de esperança".

Michel Schlesinger