Presidente da Conib fala sobre como Peres inspira o trabalho comunitário

Presidente da Conib fala sobre como Peres inspira o trabalho comunitário

 A comunidade judaica promoveu neste domingo (9), no clube A Hebraica em São Paulo, uma cerimônia em homenagem ao ex-presidente de Israel, Shimon Peres.

A solenidade teve a participação do presidente da Conib, Fernando Lottenberg, do cônsul de Israel, Dori Goren, lideranças comunitárias, movimentos juvenis e autoridades.

Lottenberg falou sobre o grande exemplo de vida do líder israelense e a inspiração que traz para o trabalho comunitário. Leia abaixo o pronunciamento:

UMA VIDA EXEMPLAR

"Shimon Peres será sempre lembrado como uma legenda na história do povo judeu e sua vida se confunde com a criação do Estado de Israel.

Sua influência nos destinos do povo judeu certamente não se encerra com sua morte. A visão de um Oriente Médio livre de guerras, desenvolvendo seu enorme potencial humano e econômico, vivendo em harmonia e prosperidade, vai perdurar e inspirar novas gerações – pois a paz com todos os seus vizinhos é o bem mais valioso que ainda falta ao Estado de Israel.

Uma das características principais de Peres era o otimismo. Ele costumava dizer que “Não há situações desesperadoras, apenas pessoas desesperadas”.

Simbolizou como poucos a saga dos judeus em busca de um lar seguro. Nascido em 1923 em uma aldeia da Polônia, emigrou para a então Palestina britânica quando tinha 11 anos, estudando primeiro em Tel Aviv e depois numa escola agrícola. Em 1941, ajudou a fundar o Kibbutz Alumot, na Galileia. Entrou para o Mapai, antecessor do Partido Trabalhista, e aos 18 anos tornou-se coordenador da ala jovem da Histadrut, a central sindical israelense.

Deve-se a ele a liderança na implantação de vários projetos militares e do programa nuclear israelense. Os que o chamavam de “ingênuo” certamente não levavam em conta sua consciência da necessidade de segurança em uma região perigosa e hostil.

Peres viveu grandes dilemas na sua trajetória política. Arquitetou planos militares e planos de paz. Acumulou derrotas e vitórias eleitorais e influenciou muitos líderes israelenses.

Seu carisma pessoal e sua dupla característica – de visionário e pragmático realizador – fez dele um grande estadista, reconhecido em quase todo o mundo.

Coordenou a implantação de um plano de estabilização econômica fundamental para combater a inflação e relançar o crescimento econômico, do qual o Plano Real, no Brasil, tirou importantes lições.

No cargo de ministro das Relações Exteriores, arquitetou os acordos de Oslo, assinados por Israel e pela Autoridade Palestina, em setembro de 1993, pelo que foi atacado pela linha-dura israelense. Às críticas, respondia: “É melhor ser controvertido pelas razões corretas, do que popular pelas razões erradas”.

Ganhador do Nobel da Paz em 1994, fundou em 1996 o Centro Peres para a Paz, com o objetivo de estabelecer pontes com os inimigos e semear a ideia de que a paz é possível.

Homem cultivado, Peres soube como ninguém encantar israelenses, líderes judeus da Diáspora e grandes lideranças mundiais. Mais próximo do final da vida, alcançou unanimidade interna e externa – que não teve anteriormente – no período em que exerceu a presidência, de 2007 a 2014.

O Centro Peres para a Paz tem como missão ajudar a construir uma infraestrutura para a paz no Oriente Médio, conectando a região num mercado comum não apenas econômico, mas também de conhecimento e de trânsito livre de pessoas. Essa organização contempla ações também no fomento da cultura, educação e esporte como instrumento para a construção da paz.

Um dos integrantes de sua equipe está aqui entre nós: Revital Poleg, da Agência Judaica. Ela nos conta o quanto era desafiador e instigante trabalhar a seu lado. Um homem forte e carismático, ao mesmo tempo doce e humano, sempre perguntando sobre a família de cada um dos integrantes da equipe e oferecendo uma palavra de conforto ou de inspiração.

Peres atuou com igual competência nos campos militar, diplomático e econômico, e foi um entusiasta das novas tecnologias. Manteve, até os 90 anos, grande curiosidade pelos temas de ciência, pesquisa e desenvolvimento humano.

Cito o que disse a seu respeito o ex-chanceler Celso Lafer: “Um dos extraordinários méritos de Peres foi o de ter articulado com muito sucesso, por suas qualidades, a dimensão simbólica, e muito válida, do papel de Israel no mundo. Ele deu ao Estado que ajudou a criar substância e legitimidade”.

Grande humanista, sua morte é uma grande perda para todos, em Israel e no mundo, para judeus e não judeus. Era uma voz de moderação, em uma região e em um mundo cada vez mais radicalizado e intolerante.

Por duas vezes tive a oportunidade de encontrá-lo pessoalmente. Em Brasília, em 2009, estivemos juntos em um almoço, oferecido pelo então Presidente Lula, no Itamaraty. Em 2013, na comemoração de seu 90º aniversário, recebeu a Conib juntamente com o então Vice-Presidente Michel Temer, em Jerusalém.

Daqui em diante, o papel de todos nós, aqui presentes, é fazer com que sua voz mansa e inteligente continue a ecoar bem alto. Que nos inspire na moderação, na negociação, na persuasão, na construção de uma visão de longo prazo para nossa comunidade, acompanhada de uma implementação correta, coerente e pragmática. Afinal, como ele dizia – e na liderança comunitária temos repetidas vezes a oportunidade de confirmar: “A maior contribuição dos judeus para história foi a insatisfação. Somos uma nação nascida para ser descontente. Acreditamos que tudo o que existe pode ser mudado para melhor”.

Todá Rabá, Shimon – seus ensinamentos seguem vivos em nós. Como ele dizia: “Existimos há quase 4000 anos, dois mil dos quais na diáspora, no exílio. No Oriente Médio atual, apenas um país fala sua língua original. Então, talvez estejamos nadando contra a corrente – mas continuamos a nadar!”.