Pragmatismo marca posição do Brasil no O. Médio, afirmam analistas em SP

Pragmatismo marca posição do Brasil no O. Médio, afirmam analistas em SP

 “Três variáveis condicionam as relações do Brasil com israelenses e palestinos: 1) as relações Brasil-EUA; 2) a busca de uma política externa global; 3) a tradição diplomática brasileira e seu repertório permanente”, afirmou o professor da FGV Guilherme Casarões, na palestra que encerrou em 28 de outubro o ciclo “Israel e o Mundo”, em São Paulo, com o tema “Israel e Brasil e América Latina”. “Pragmatismo e busca de consenso multilateral” marcam a posição brasileira, resumiu o professor da UNESP Tullo Vigevani.



Ambos iniciaram sua exposição abordando os “lugares-comuns” sobre o tema, a saber: a América Latina (AL) se distancia das polêmicas Oriente Médio, e após o Choque do Petróleo, em 1974, passou a se guiar por imperativos econômicos e ideológicos. 



Os dois pesquisadores procuraram mostrar que não há uma posição comum coerente nem uma política externa linear da AL em relação a Israel e aos árabes. Eles periodizaram o estudo do tema em três fases: 1) 1947-1974: equidistância, com influência dos EUA; 2) 1974-1990: polarização, com fortalecimento pró-árabe; 3) 1990-2013: normalização com Israel e Autoridade Palestina – a partir de 2003, renovação do compromisso com a causa palestina.



Casarões abordou a posição brasileira na ONU, nas diversas resoluções sobre Israel, com destaque para o apoio brasileiro à Partilha da Palestina, em 1947, em reunião presidida pelo diplomata Oswaldo Aranha, e na votação que equiparou sionismo e racismo, em 1975. O analista procurou desvendar o processo decisório do governo brasileiro neste caso, mencionando a “irritação” do presidente Geisel com os EUA, por causa da política brasileira de energia atômica e de direitos humanos, e citando o diplomata brasileiro Sérgio Correia da Costa, segundo o qual, até o último dia a posição brasileira era de abstenção.

 

A partir de 1990, com o fim da Guerra Fria, houve alinhamento com os EUA dos governos Collor e Menem. Em 1991, toda a América Latina, com exceção de Cuba, votou pela revogação da resolução de 1975. Por outro lado, em 1993, o Brasil abriu o primeiro escritório da Autoridade Palestina, com a intenção de ser um “interlocutor diplomático de peso”, segundo Casarões. Para ilustrar o “pragmatismo e multilateralismo” que norteia a diplomacia brasileira, Vigevani citou o Acordo de Livre Comércio Mercosul-Israel, que começou a ser negociado em 2005, e as três reuniões da Cúpula América do Sul-Países Árabes (ASPA), desde 2005.



De qualquer forma, com o governo do PT, a partir de 2003, o País passou a priorizar a cooperação Sul-Sul, com autonomia em relação aos EUA – posição também adotada nesse período por Argentina e Venezuela – e maior compromisso com a causa palestina. Nesse período, aliados tradicionais de Israel, como Costa Rica e El Salvador, se aproximaram dos palestinos. Em 2009, após o conflito em Gaza, Venezuela e Bolívia romperam relações com Israel. 



Para Vigevani, no entanto, a diplomacia brasileira tem um “repertório permanente”, desde os anos 1970, que reitera o direito de Israel de existir em fronteiras seguras e o direito de os palestinos terem um Estado.  Segundo ele, o papel ativo do Brasil no reconhecimento da Autoridade Palestina como Estado observador na ONU, em 2012, não muda a linha pragmática: “o reconhecimento da AP foi uma unanimidade internacional”. Ele lembrou a visita de Lula a Israel, em 2010, e observou que 85% do comércio de Israel com o Mercosul vem do Brasil – há acordos de transferência de tecnologia nos setores agrícola, segurança, defesa e alta tecnologia.



Vigevani citou o ex-cônsul de Israel em São Paulo, Ilan Sztulman, para observar que a reabertura do consulado, em 2010, “mostra a importância do Brasil para Israel”. O analista considera que a América Latina não merece a mesma atenção da diplomacia israelense, e a mudança em relação ao Brasil está relacionada ao papel crescente desempenhado pelo País no cenário internacional. Com as perspectivas econômicas não muito otimistas para o Brasil no futuro próximo, disse o professor, fica em aberto se Israel manterá essa aproximação.



Os analistas discordam quanto ao papel do Brasil no processo de paz entre israelenses e palestinos. Para Casarões, o Brasil não tem “alavanca política” para influenciar o processo e trata com “leniência” os dilemas israelenses com relação à segurança. Para Vigevani, a posição histórica de Israel é de aceitar apenas a mediação dos EUA, mas o Brasil tem “soft power” e reconhecimento internacional pela defesa do multilateralismo. Isso pode influenciar, “ainda que de forma pequena”, a formação de uma coalizão internacional que leve a um acordo.



O papel da diáspora judaica no processo de paz também foi abordado. Para Vigevani, as comunidades judaicas, “começando pelos EUA”, têm uma lógica de fidelidade a Israel que se tornou um objetivo em si, uma “lógica não política”, que não pondera para a resolução do conflito, pois "a política é a lógica da negociação, com concessões". Certamente, “há elementos da história milenar dos judeus que explicam esta sensação de cerco e a solidariedade integral a Israel”. Mas “os cem anos de confronto entre judeus e árabes no Oriente Médio são uma experiência de falta da lógica política”.