Nobel da Paz, Ramos-Horta dá aula aberta na USP sobre Oriente Médio

Nobel da Paz, Ramos-Horta dá aula aberta na USP sobre Oriente Médio

“O lado palestino falhou muitas vezes. Subestimou Israel e lançou guerras. Seus líderes nunca perderam a oportunidade de perder uma oportunidade. A responsabilidade é também dos líderes árabes. Por outro lado, Israel, como vitorioso, deve ser magnânimo com os vencidos. Falta um líder de estatura moral com a visão de Mandela ou Ghandi para fazer isso”. Diante da complexidade do conflito israelo-palestino, a falta de líderes com grandeza é o diagnóstico dado pelo Nobel da Paz Ramos-Horta, ex-presidente do Timor-Leste, durante aula aberta realizada no auditório da História-USP, para cerca de 200 pessoas, na noite desta terça-feira, 2 de outubro.  

Ramos-Horta iniciou sua fala se posicionando como um não especialista no conflito entre israelenses e palestinos, e com simpatia pelos dois lados. Ele expôs o processo de independência de Timor-Leste e lembrou que 200 mil timorenses foram mortos pelos indonésios em 24 anos de resistência – cerca de 20% da população – o que configura um genocídio de proporções absurdas. Hoje, no entanto, o país mantém com a Indonésia ótimas relações.  

Como se explica isso? “Apesar do massacre de civis, a resistência nunca reagiu da mesma forma. Nunca houve terror por parte de Timor-Leste. Nossos prisioneiros receberam tratamento digno. Nunca diabolizamos o Islã [a Indonésia é o país com a maior população muçulmana do mundo], nem tratamos os muçulmanos como inimigos. Não cedemos à tentação do ódio e da vingança”.  

O Nobel da Paz relatou um encontro em Londres com um jovem palestino, que lhe perguntou: “Como um país tão pequeno conseguiu a independência?” A resposta: “Foi uma luta vencida no plano político e diplomático. Timor-Leste fica no fim do mundo, mas conseguimos mobilizar a opinião pública mundial, sem violência, sem fanatismo, sem ódio”.   Como se libertaram da cultura do ódio? “Nossos líderes, Nicolau Lobato e Xanana Gusmão nos ensinaram isso”. Ele criticou a postura de líderes como Mohamed Mursi, no Egito, “que deveria caminhar em direção às minorias, mas as hostilizou”, a falta de líderes da oposição na Síria e a recusa de Arafat em aceitar a proposta israelense em Camp David, no ano 2000. “Usamos com a Indonésia a tática do salame: aproveitamos todas as pequenas fatias”. Peter Demant, professor de História da USP e um dos debatedores, observou que há diferenças importantes nos processos de paz de Timor-Leste e entre israelenses e palestinos. “Os palestinos também têm vitórias diplomática e de propaganda, mas isso não se reflete no terreno prático. As vítimas em toda a história do conflito israelo-palestino não chegam a um décimo dos números de Timor-Leste, mas a dificuldade é maior, pois se trata de um conflito existencial, em que os dois povos se veem com direito à terra e têm narrativas diferentes, mas fortes.  É necessário um reconhecimento mútuo como entidades políticas, um processo interno, psicológico. Sem isso, não há paz ”.  

Para Arlene Clemesha, diretora do Centro de Estudos árabes da FFLCH-USP, um olhar externo ao conflito pode ser proveitoso: “Necessitamos inovação”. Ela lembrou que, após visitar Israel e a Cisjordânia, em 2011, Ramos-Horta escreveu que é preciso dialogar com o inimigo. O líder timorense respondeu que movimentos como o Hamas e o Hezbolá têm apelo popular e não devem ser tratados como grupos terroristas por Israel. Por outro lado, apontou o Irã como um fator de instabilidade na região, que prejudica tanto israelenses quanto palestinos. Quanto a estes, observou que Hamas e Fatah devem se entender: “São necessários parceiros críveis para fazer a paz – e uma negociação paciente”.  

O evento foi organizado pelo Fórum 18, com apoio da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e do Grupo de Trabalho Oriente Médio e Mundo Muçulmano da História-USP.  

Leia matéria sobre a aula aberta, em o Globo.  

Veja entrevista com Ramos-Horta, na Folha de S. Paulo.