Ivanka Trump não está só: “todo mundo” quer ser judeu

Ivanka Trump não está só: “todo mundo” quer ser judeu

Milhões de pessoas em Israel e em todo o mundo veem-se hoje como parte da “família judaica”, e buscam filiação ao judaísmo – com ou sem conversão oficial, segundo o site israelense YNet.

Em entrevista ao site, o pesquisador Netanel Fisher, da Open University de Israel, tenta explicar como, após 2.000 anos de rejeição e humilhação, o judaísmo ganhou popularidade. Ele é o organizador, junto com o professor Tudor Parfitt, da Universidade da Florida, do recém-lançado livro – e ainda sem edição em português – “Becoming Jewish: New Jews and Emerging Jewish Communities in a Globalized World” [Tornando-se Judeus: Novos Judeus e Comunidades Judaicas Emergentes em um Mundo Globalizado].

Para Fisher, a mudança dramática começou na década de 1980. Ele mostra alguns números: Israel tem hoje 300 mil habitantes que fizeram a aliá sob a Lei do Retorno, mas não são considerados judeus de acordo com a Halachá. Apenas 25 mil deles se converteram, e outros 250 mil são parte da “família judaica”.

“Eles se veem antes de tudo como judeus. Falam a língua, seus filhos têm nomes israelenses, acendem velas de Chanucá e jejuam em Iom Kipur. Quem pode dizer-lhes que não são judeus?”, pergunta o pesquisador. “Na América do Sul, existem centenas de milhares dessas pessoas. Na África Oriental, em Madagascar, nas tribos Omuhimba e Lembaa, muitos se veem como judeus. Os Bnei Menashe do norte da Índia dizem: “Somos descendentes das dez tribos”.

Europa

Na Europa, que perdeu inúmeros judeus na Segunda Guerra Mundial, o judaísmo também está florescendo. Gentios estão de repente “lembrando” sua ascendência judaica. Na Polônia, muitos moradores descobriram ter um avô que sobreviveu ao Holocausto e escondeu o fato de que ele ou ela era judeu, e a Alemanha está experimentando um fenômeno de “conversão reversa” – alemães que buscam se converter para “expiar” os crimes de seus compatriotas.

“Um rabino em Varsóvia me disse que, quando chegou à cidade, lá só havia judeus velhos”, diz Fisher. “Agora, afirma: Eu sou o homem mais velho da comunidade”. “Em muitos casos, esses convertidos se tornam líderes das comunidades judaicas, porque afinal de contas, são pessoas comprometidas, que não consideram o judaísmo como algo dado”.

Denominador comum

De acordo com a estimativa de Fisher, são milhões de pessoas nessa situação em todo o mundo. “Há muitas diferenças entre Ivanka e Bnei Menashe, mas com um denominador comum – todos querem ser judeus.”

Este estudo é surpreendente, afirma o YNet, à luz de outra pesquisa recente, do demógrafo Sergio DellaPergola, que aponta o encolhimento do “núcleo duro” do povo judeu.

“Não há contradição”, responde Fisher. “O núcleo duro judeu está enfraquecendo por causa de casamentos mistos. Ele pode estar desaparecendo, mas a periferia judaica está crescendo. ”

Razões para o fenômeno

Para Fisher e Parfitt, a revolução da Internet e a revolução espiritual mudaram o mundo simultaneamente. Como parte da segunda, muitos estão à procura de uma identidade, e mais importante – a busca tornou-se legítima.

Outra coisa que mudou, de acordo com os pesquisadores, é a própria percepção do mundo judaico, que é visto – pela primeira vez em 2.000 anos – com uma luz positiva. Milhões de pessoas, dizem eles, encontram no judaísmo uma espiritualidade profunda, valores familiares, intelectuais e sabedoria.

Hoje, ao contrário do passado, uma pessoa pode se orgulhar de ser judia. “A filha do presidente dos Estados Unidos pode se casar com um judeu, e ninguém considerará isso uma degradação”, observa Fisher.

Avaliação do processo

“Há, definitivamente, muitos elementos positivos aqui. Esta grande periferia judaica pode fortalecer o núcleo. Há tantas pessoas que querem se juntar a nós, e eles nos estão dando poder e força. O Estado de Israel pode ter centenas de milhares de embaixadores em todo o mundo “.

“Sou uma pessoa religiosa”, diz Fischer, “mas não podemos permanecer no ‘ontem’, num mundo que não existe mais. Quase todas as nossas crianças serão afetadas pela aldeia global. Se alguém pensa que poderá impedir que seus filhos se casem com descendentes de famílias judias de ascendência russa – ele está muito errado. ”

No entanto, os pesquisadores também apresentam aspectos negativos para a nova tendência. Perguntas surgem: Quão sincera é esta afiliação? Quão comprometidos estão os novos membros com o judaísmo e com Israel? E, o mais importante: este interesse pelo judaísmo provém de um interesse financeiro para emigrar para um país desenvolvido?

“A abordagem conservadora olha para esse fenômeno com horror”, afirma Fisher. “Os conservadores temem que a grande massa de novos membros danifique seriamente o judaísmo autêntico e a identidade que tem sido preservada por tantos anos. Sua solução é, simplesmente, aumentar as paredes, criar mais dificuldades para aqueles que procuram a adesão e permitir a conversão de muito poucos “.

Fisher está convencido de que o Rabinato-Chefe de Israel deve pensar em termos diferentes, mais liberais e abertos. Como exemplo, ele menciona a corajosa decisão do rabino Ovadia Yosef, nos anos 1980, que reconheceu os imigrantes da Etiópia – os “Falashas” – como judeus, apesar da grande controvérsia em torno de sua filiação ao judaísmo.

“Precisamos de pessoas honradas como o falecido Rabi Ovadia para encontrar maneiras de aproximar essas pessoas, e não expulsá-las”.

Questões e dificuldades

Será que tanta gente não mudará o caráter do povo judeu?

“Não tenho respostas para todas as perguntas e dificuldades”, admite Fisher. “Eu sei que estas são as perguntas que teremos que tratar no século 21. Não podemos simplesmente ignorá-los. Existem muitos pontos de interrogação e poucos pontos de exclamação. Mas o ponto principal é que já estamos nesse ponto. Não podemos levá-lo para trás”.

“O que seremos obrigados a fazer é juntar todas as organizações judaicas em torno de uma mesa e pensar sobre a resposta que estamos dando aos milhões de pessoas que chegam à nossa porta, ou mesmo já a cruzaram”.

Leia mais, no YNet.