Encontro do judaísmo progressista debate a inserção do judeu no mundo

Encontro do judaísmo progressista debate a inserção do judeu no mundo

 

 
 
A Congregação Israelita Paulista celebra em 2016 seu 80º aniversário. Um dos pontos altos da comemoração foi a realização semana passada de um encontro latino-americano da WUPJ- União Mundial pelo Judaísmo Progressista, que reuniu em São Paulo cerca de 150 pessoas de diversos países. O judaísmo progressista não se atém apenas à tradição e às sinagogas, mas vincula-se também à vida civil de cada país.
 
Participaram do evento Carole Sterling, presidente da WUPJ Internacional; Yaron Shavit, ex-presidente do Israel Movement for Progressive Judaism; rabino Roberto Graetz, que teve importante papel na luta contra a ditadura argentina; o rabino Sergio Bergman, ministro do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Argentina; e o presidente da Conib, Fernando Lottenberg. Entre as autoridades, o cônsul da Argentina e o vice-cônsul da Alemanha. Também estiveram presentes dirigentes comunitários, educadores, jornalistas, ativistas políticos e sociais. Veja a programação completa. A TV Record cobriu a visita dos participantes ao Residencial Israel Albert Einstein. Assista.
 
Abaixo, um resumo dos principais pontos debatidos:
 
 
O judaísmo progressista
 
Em suas diversas intervenções ao longo do evento, Bergman afirmou que “o judaísmo progressista nem sempre é reconhecido, sobretudo na América Latina”. Para ele, no Brasil e na Argentina, o judaísmo adquiriu certas características do cristianismo, no sentido de que as pessoas nestes países vão à sinagoga como os cristãos vão à igreja, ou seja, a dimensão religiosa é a mais forte.
 
“A WUPJ não quer ser apenas uma corrente religiosa, mas uma porta aberta para quem quer ter uma identidade judaica. Não queremos ‘evangelizar’ os judeus, mas oferecer um lugar a todos, sem dogmas. Temos em comum visão e destino. O judaísmo é uma das civilizações mais antigas, mas os judeus veem-no hoje como religião”, prosseguiu o rabino.
 
“Tomamos paradigmas do Ocidente e do cristianismo e perdemos a raiz original de nossas práticas. Temos, então dois caminhos: 1) a autossegregação contra as ameaças; 2) a integração à sociedade maior, mas sem assimilação”, acrescentou Bergman.
 
Para Raul Gottlieb, presidente da WUJP/AL, o desafio judaico é manter sua relevância, juntando ética e Tikun Olam [reparar o mundo], a partir da tradição rabínica.
 
 
Continuidade do judaísmo e relação com Israel
 
Para Bergman, a continuidade judaica deve se dar via integração: “uma agenda judaica em benefício da sociedade maior”, que será aprimorada “por meio da educação, da prática, do exemplo”. Devemos evitar o “gueto mental”.
 
A relação com Israel deve ser simétrica: “uma só lealdade, coerente com identidade judaica e participação nacional com aporte judaico. Israel deve ser visto como desafio, não como refúgio". O desafio? “Viver lá os valores judaicos, ser uma luz para as nações, ver o Messias como um ideal de paz”.
 
Ele referiu-se a uma “neurose judaica da Aliá”: “Não podemos responder como os israelenses às questões israelenses”. Já Yaron Shavit considerou que, em Israel, a opinião da Diáspora é muito importante. “Sem vocês, perdemos a razão de ser”.
 
 
A democracia como valor judaico
 
“Como encarnamos na prática nossos valores? A continuidade judaica não pode ocorrer sem democracia”, disse Bergman.
 
“A raiz etimológica da palavra democracia não é judaica. No Mishné Torá [Segundo à Torá], Maimônides escreveu que Israel recebeu três coroas: a coroa do Sacerdócio, ritual, intermediada pelo culto; a coroa dos Reis, que foi entregue a David; e a coroa da Torá, usada pelos rabinos, mas não em nome próprio, até os dias de hoje”.
 
“Os rabinos definem as práticas. Qual é o sistema de governo judaico? Os modelos ocidentais são bons, mas não judaicos. Como escutar a voz de cada judeu? Pela democracia direta: a Kehilá [comunidade], que permite a construção conjunta de sentido”.
 
“Há uma diferença entre legado e herança. A que devemos dar continuidade? Nossos netos devem decidir que judaísmo irão praticar. Há liberdade entre as gerações, bem como entre os pares. Não somos apenas religião, somos civilização, aberta à interpretação. Que o mundo não nos ponha no molde da religião!”.
 
“Devemos despolitizar a religião e louvar a autenticidade do vínculo íntimo com D’eus, sem intermediações. O modelo: voltar à mesa, lugar de estudo simétrico, com todos ao redor do texto”.
 
 
Os judeus e a questão dos refugiados
 
“O judeu, com vários exílios, tem obrigação de dar abrigo”, afirmou o rabino Graetz. “É necessária a Tzedaká [justiça social] na era dos refugiados. Sou herdeiro de tradição profética, que me exige participação”.
 
“No judaísmo, é norma: somos, a partir do que fazemos para os outros. Hoje, ser neutro não é bom. A virtude é a prática: se não fizermos o bem, não haverá continuidade judaica”.
 
“Existem três níveis de Tikun: para si mesmo (diminuir o ego); Tikun Am: quem é meu povo? Ajudamo-nos, mas não só entre judeus; Tikun Olam: dimensão cósmica, agir sobre si e sobre a parte do mundo em que atua”.
 
“Hoje, não há refugiados judeus, mas o que fazemos? Os judeus sempre se perguntaram: “Isso é bom ou mau para nós?” Esse paradigma deve ser mudado, pois “se está mal para a sociedade, estará mal para os judeus”, completou Graetz.
 
 
O trabalho voluntário nos EUA e na América Latina
 
O rabino Graetz vive há 25 anos nos EUA. Questionado sobre a maior participação dos judeus na vida no país e no Tikun Olam, em comparação com as comunidades da América Latina, ele disse que um dos fatores que pode explicar isso é a constância democrática nos EUA. “Aqui na América Latina, temos menos cultura cívica. Nos EUA, sinagoga e igreja são também centros comunitários. Aqui, há que gostar mais dos judeus visíveis”.
 
Bergman observou que os argentinos são “muito solidários, mas pouco responsáveis pelos problemas da sociedade”.
 
E notou: “Há um câmbio de paradigmas para os judeus. Devemos trabalhar com a sociedade maior, que espera de nós mais participação. Isso atrairá também os judeus que se sentem desconectados”.
 
"A tradição judaica não é discursiva. Assim, não adianta dizer o que precisaria ser feito e sim tomar atitudes”, completou.
 
 
Um rabino na política
 
Bergman disse que sua ação política foi “um caminho. Todos os rabinos somos políticos. A política não é a má prática que vemos por aí, mas a ação nobre de transformar ideias em realidade”.
 
Ele contou que sua terceira filha nasceu no mesmo dia do atentado à Amia, em 1994. “Não podia ficar entre quatro paredes, saí da maternidade para ajudar. Com todos os problemas vividos pela Argentina nos anos seguintes, havia um chamado profético para ir trabalhar em prol da sociedade”.
 
“A solução para o caso Amia é buscar a recuperação da República de uma forma que não viole a Constituição argentina. A Justiça está impregnada pelo kirchnerismo, e o governo Macri não pode interferir. Temos que respeitar os poderes. A justiça tardará, mas será feita”.
 
Sobre sua indicação como ministro: “A comunidade judaica na era Kirchner é a mesma da atual, sob Macri. A diferença é que atualmente temos mais voz: um rabino reformista foi indicado ministro, talvez como forma de compensação por Perón ter dado abrigo a nazistas”.
 
A dívida judaica: “O povo argentino não é antissemita, apenas indivíduos o são. Mas há hoje discriminação contra paraguaios, bolivianos, peruanos. A comunidade judaica precisa agir contra isso”.
 
 
O rabino e o papa
 
“Bergoglio foi eleito papa, porque é um jesuíta. É ilustrado, estadista”, disse Bergman.
 
“O diálogo inter-religioso promovido por ele tem os interlocutores de uma agenda cristã. Não sejamos ingênuos: faremos coisas juntos, se estiver na agenda dele. Ele conta conosco como parte de sua equipe, para fazer uma ponte com os muçulmanos. Seu próximo desafio é com os muçulmanos, não com os judeus”.
 
“Nós dois trabalhamos juntos, mas respeitosamente distanciados”.
 
 
A importância do encontro no Brasil
 
Para Bergman, “o judaísmo progressista precisa de uma voz forte e clara na América Latina. Este encontro tem uma agenda latino-americana, e a liderança voluntária pode nos ajudar. O judaísmo liberal precisa ser mais conhecido, e o não judeu deve saber que o judeu convive com ele pelo bem comum”.
 
 
CONFERÊNCIAS NO FORMATO TED TALKS
 
Durante o encontro, palestrantes de diversas áreas tiveram 12 minutos para abordar seus temas.
 
O presidente da Conib, Fernando Lottenberg, falou sobre a recente aprovação da lei antiterrorismo e a atuação da entidade para que isso ocorresse, incluindo conversas com lideranças políticas de diversos partidos. Essa é uma das bandeiras da atual gestão. Veja a apresentação.
 
Bruno Laskowsky, presidente da Fisesp, abordou a reconfiguração da arquitetura comunitária judaica, destacando os temas da educação, envelhecimento, gestão das entidades e juventude, para a qual está sendo preparado um aplicativo para smartphone.
 
O rabino Ruben Sternschein tratou do tema “Halachá democrática” e a importância da ação no judaísmo, em contraposição à Agadá, em que se discute por quê e para quê. A “democracia halachica” utiliza muitas fontes, incluindo as agádicas e as não judaicas.
 
O rabino Michel Schlesinger falou sobre a questão do gênero no judaísmo. Ele exibiu uma foto de 1908, com homens e mulheres rezando juntos no Muro das Lamentações. Também mostrou que a primeira rabina foi ordenada em 1935, na Alemanha, e, em 2009, a primeira rabina ortodoxa.
 
O jornalista Eurípedes Alcântara, ex-diretor da Veja, falou da impressão deixada pela noite de abertura do encontro, que lhe mostrou a “força das questões morais para os judeus”. Ele abordou o tema "Jonalismo e Isenção" e usou o Brexit como exemplo da "venda à opinião pública de uma falsa verdade".
 
Ivo Herzog, do Instituto Vladimir Herzog, afirmou que entre 80% e 90% dos filantropos investem em educação, mas apenas em alfabetização em matemática. “No Brasil, há pouco interesse pela história”. Ele apresentou os resultados do programa “Respeitar é Preciso”, que atende um milhão de crianças em São Paulo.
 
Yaron Shavit, ex-presidente do Israel Movement for Progressive Judaism e coronel da reserva, falou sobre os cuidados tomados pelo Exército de Israel para diminuir os efeitos de suas operações sobre populações civis.
 
Andreas Heinecke, criador da mostra “Diálogos no Escuro”, atualmente em cartaz na Unibes Cultural, falou na importância da empatia, principal propósito de seu trabalho. “Somos gigantes em conhecimento, mas anões em ações”.
 
A nutricionista Dafna Kann contou a história da ONG Prato Cheio, criada há 14 anos por jovens universitários e que tem muitos membros da comunidade judaica.
 
Gustavo Michanie, do grupo Judeus Argentinos Gays, abordou as dificuldades do matrimônio igualitário e apresentou vídeos com depoimento de duas jovens argentinas que casaram em cerimônia religiosa judaica, após a  conversão de uma delas ao judaísmo.
 
Rogério Chequer, do movimento Vem Pra Rua, contou a história do grupo e seus planos para o futuro.
 
Miriam Kramer, presidente da EUPJ [European Union for Progressive Judaism], falou sobre o Brexit, o antissemitismo e a crise migratória na Europa. Sobre a saída britânica da União Europeia, mostrou-se pessimista, dizendo que a decisão decorreu do “medo do desconhecido”, em um debate que teve como foco a questão da imigração [que ela sempre apoiou]. Quanto ao antissemitismo, por ser um continente diverso – a EUPJ tem 27 países filiados – não há como generalizar. Ela ressaltou que "ele existe, mas não tão ruim como a mídia mostra. Mesmo assim, os judeus estão vigilantes".
 
Sally Gansievich e Edy Huberman, da Fundación Judaica, da Argentina fizeram uma apresentação sobre a instituição, trabalhos e objetivo e mostram a importância de um trabalho coordenado entre profissionais e  voluntários.
 
Denis Plapler, do Portal do Educador, falou sobre a “educação em liberdade” para o desenvolvimento da autonomia da criança. Ele criticou o que chama de “estrutura industrial de ensino” e propôs mudanças, como dar à criança o direito de escolha.