DISCURSO DE FERNANDO LOTTENBERG

Senhoras e Senhores,

Neste 27 de janeiro, celebramos os 70 anos da liberação do campo de extermínio de Auschwitz por tropas soviéticas. A abertura do maior campo nazista, onde foram assassinados mais de um milhão de pessoas, é um marco fundamental na história moderna por revelar tanto a capacidade humana de cometer atrocidades inomináveis quanto aquela de se unir para derrotá-las. E delas não se esquecer.

Foi por isso que a ONU escolheu o dia de hoje como o Dia Internacional em Memória às Vítimas do Holocausto. Para que a memória cumpra seus papéis, entre os quais o de impedir que tragédias como aquela voltem a ocorrer.

A luta contra a intolerância, o preconceito e a discriminação é uma das principais lutas da humanidade. Para derrotá-los, antes que fiquem ainda mais perigosos e letais, é preciso saber interpretar os sinais que a realidade envia, à luz da experiência histórica.

Os ataques ocorridos em Paris neste mês, contra a redação de um jornal e contra um supermercado kashernão foram ataques isolados, realizados por lobos solitários. Eles são fruto de um extremismo intolerante, que desumaniza o outro e busca se espalhar pelo mundo.

Assim como aconteceu na Noite dos Cristais, em 1938, quando hordas nazistas destruíram e saquearam sinagogas e estabelecimentos pertencentes a judeus na Alemanha, prenunciando as trevas dos anos seguintes, hoje novamente vemos ataques contra instituições judaicas nas ruas da França, da Bélgica, da Alemanha e em outras partes do continente europeu. Mesmo nos Estados Unidos, dois terços dos crimes de ódio com motivos religiosos, ocorridos em 2012, tiveram como alvo judeus ou instituições judaicas.

O mundo, e especialmente os europeus, pareciam novamente pouco dispostos a ler os sinais da realidade, mesmo quando crianças foram mortas num brutal ataque terrorista a uma escola judaica em Toulouse em 2012. Ou quando outro terrorista atacou o Museu Judaico de Bruxelas no ano passado, matando quatro pessoas. Rapidamente, aqueles terroristas foram tratados como heróis na vasta rede extremista islâmica que os cria e nutre, ou são então tratados como excluídos, desintegrados e até mesmo vítimas.

Ficou claro que aqueles e outros ataques ocorridos nos últimos anos não foram suficientes para acordar a Europa. Por isso voltaram a ocorrer, agora no coração de Paris e, mais uma vez, não só contra judeus, mas igualmente contra jornalistas e chargistas, representando um atentado direto contra a liberdade de expressão.

Samantha Power, autora de um livro denominado “O homem que queria salvar o mundo” sobre Sergio Vieira de Melo – brasileiro, alto funcionário das Nações Unidas e vítima do terror jihadista no Iraque – é hoje a embaixadora dos Estados Unidos na ONU. Ela lembrou, na semana passada, em sessão da Assembleia Geralque discutiu o ressurgimento do antissemitismo, que este é raramente a única ou a última manifestação de intolerância. Quando os direitos humanos dos judeus são reprimidos, afirmou, os direitos de outros grupos – religiosos, étnicos ou políticos – frequentemente são atacados em seguida.

Após o atentado contra o “Charlie Hebdo”, seguido pelos assassinatos no mercado kasher, as autoridades europeias finalmente se movimentam e prometem dureza contra o terrorismo e a propagação do ódio. Como afirmou o premiê francês Manuel Valls, apelando aos assustados judeus para que não deixem o país, “A França sem os judeus não é a França”.

O Brasil, temos orgulho de dizer, também não seria o Brasil sem sua comunidade judaica. Nossos pais e avós, fugindo da perseguição e da falta de oportunidades na Europa e no Oriente Médio, encontraram aqui um país acolhedor e um povo hospitaleiro e tolerante. Gerações de judeus brasileiros deram e seguem dando contribuições relevantes em praticamente todas as áreas e atividades deste país – na cultura, na ciência, nas universidades, nos governos e nas empresas.

Mas, se o antissemitismo violento sempre nos pareceu distante, é certo que o mundo globalizado e hiperconectado o aproxima de nós e impõe a necessidade de estarmos cada vez mais vigilantes aos sinais da realidade.

O filósofo Bernard-Henry Lévy, na mesma sessão da ONU acima mencionada, lembrou que a retórica dos padrões tradicionais do antissemitismo – de caráter religioso, racista ou de classe – não mais funciona no mundo de hoje. O argumento atual é o de que os judeus apoiam um Estado ilegítimo, que comete atos imorais, fundado sobre um sofrimento imaginário – ou exagerado (o Holocausto) – e calando outros mortos e mártires, em uma aparente “competição de vítimas”.

Hoje em dia, portanto, o novo antissemitismo vem travestido de antissionismo, o que oferece a quem o professa a oportunidade de um racismo "politicamente correto". Mas, de fato, é apenas racismo de que se trata, pois nega ao povo judeu o que é aceito para os demais: o direito à autodeterminação nacional.

Chegamos a um ponto em que os horrores do Holocausto são lembrados em grande parte do mundo árabe e da Europa apenas para atacar Israel ou seja, de forma indireta, os judeus como um todo.

E quando Israel se vê frente aos foguetes lançados pelo Hamas – outra vertente do extremismo islâmico – contra sua população civil, imediatamente erguem-se vozes – silentes quando ocorrem graves violações contra direitos humanos em outras partes do mundo, tais como na Síria, Iraque ou Nigéria – para condenar qualquer atitude como genocídio ou alguma outra denominação deslegitimizadora da existência do Estado de Israel, nascido em sessão destas mesmas Nações Unidas que copatrocinam o ato de hoje. Neste ano de 2015, lembramo-nos do centenário do genocídio – este sim real – perpetrado contra os armênios pelos otomanos.

Senhoras e Senhores

O que aconteceu em Paris redefine a situação de segurança e o status dos judeus e outras minorias no mundo. O mesmo terrorismo que mata judeus por serem judeus, mata cristãos por serem cristãos, xiitas por serem xiitas, sunitas, ocidentais e assim, sucessivamente.

Na vizinha Argentina, passados mais de vinte anos sem esclarecimentos satisfatórios quanto aos responsáveis pelos atentados contra a Amia e à embaixada de Israel, matando dezenas de inocentes, recebemos com espanto a notícia da morte, ainda não esclarecida, do promotor encarregado das investigações, que apontava para responsabilidades nos mais altos escalões governamentais daquele país. Embora ainda sem informações completas para chegarmos a uma conclusão definitiva, não há como não se lembrar das farsas e dos falsos suicídios, comuns no Brasil do período autoritário.

Para enfrentar essas situações, são necessários instrumentos legais adequados, no âmbito do Estado de Direito. Apesar de nossa Constituição repudiar o terrorismo, o Brasil até hoje não aprovou uma lei antiterrorismo, mesmo com recomendações da ONU nesse sentido. Os últimos acontecimentos demonstram que nenhum país está imune a esta chaga e, para tanto, é chegado o momento de darmos prioridade à aprovação de uma legislação nesse sentido entre nós.

Vamos nos dedicar a essa tarefa, buscando apoio no Legislativo e no Executivo, para proteger nossas fronteiras e para que nosso país possa continuar livre dessa praga mortal, que assola o mundo de hoje.

 

 Panorama da cerimônia no Palácio do Itamaraty. Foto: Valerio Lopez.

A partir da esquerda, Giancarlo Summa, Fernando Lottenberg, Francisco Dornelles, Paulo Maltz, Alessandro Molon e Marcelo Calero. Foto: Valerio Lopez.

Giancarlo Summa e Fernando Lottenberg. Foto: Valerio Lopez.

Paulo Maltz e senhora, Francisco Dornelles, Marcelo Calero, Herry Rosenberg e senhora. Foto: Valerio Lopez.

Acendimento da primeira vela: Alfredo Sobotka, sobrevivente de Auschwitz; Karina Kupfer, presidente do Conselho Juvenil Sionista; Claudio Nascimento, do Movimento LGBT, e babalaô Ivanir dos Santos, da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa. Foto: Valerio Lopez.

Acendimento da segunda vela: Lior Ben Dor, ministro de Israel no Brasil; Stefan Janczukowicz, presidente da Associação “Sociedade da Polônia no Rio de Janeiro”, representando o embaixador Andrezj Braiter; Harald Klein, cônsul-geral da Alemanha; Sanjeev Chowdhury, cônsul-geral do Canadá; Brice Roquefeuil, cônsul-geral da França; Simon Moskau, sobrevivente do Holocausto.
Foto: Valerio Lopez.

Acendimento da terceira vela: vereadora Teresa Bergher; Rafael Turkienicz, Thea Heidinger, sobrevivente do Holocausto. Foto: Valerio Lopez.

Acendimento da quarta vela: diácono Nelson Águia, representando o cardeal Dom Orani Tempesta, arcebispo da cidade do Rio de Janeiro; Israel Klabin, ex-prefeito da cidade do Rio de Janeiro, grande benemérito da comunidade judaica; Jack Terpins, presidente do Congresso Judaico Latino-Americano; Frederik Glatt, sobrevivente do Holocausto; deputado federal Alessandro Molon, que representou a presidente Dilma Rousseff. Foto: Valerio Lopez.

Acendimento da quinta vela: Paulo Maltz, presidente da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro; Marcelo Calero, presidente do Comitê Rio450; Nanette Konig, colega de classe de Anne Frank e sobrevivente do Holocausto; e os jovens Ruth Zagarodny e Joseph Hauser. Foto: Valerio Lopez.

Acendimento da sexta vela: Fernando Lottenberg, presidente da Confederação Israelita do Brasil; Francisco Dornelles, vice-governador do Estado do Rio de Janeiro; Alexander Laks, presidente da Associação Brasileira dos Sobreviventes do Nazismo e sobrevivente de Auschwitz. Foto: Valerio Lopez.

Jack Terpins cumprimenta Fernando Lottenberg. Foto: Valerio Lopez.

Milton Gonçalves confraterniza com Aleksander Laks. Foto: Valerio Lopez.

Paulo Maltz reverencia Nanette Konig, colega de classe de Anne Frank. Foto: Valerio Lopez.

Participantes assistem ao filme ”Obrigado, Brasil”, sobre o Dia do Holocausto. Foto: Valerio Lopez.

Exposição em homenagem a Jan Karski. Foto: Valerio Lopez.

Carta do Vaticano à comunidade judaica brasileira. Reprodução.

 

 

Repórter da Globo News abraça Aleksander Laks. Foto: Valerio Lopez.

Fernando Lottenberg fala à TV Globo. Reprodução.

Líderes de diversas religiões homenageiam em São Paulo as vítimas do Holocausto. Foto: Tahia Macluf.

Folha de S. Paulo destaca a solenidade em São Paulo. Reprodução.

Delegação polonesa e representantes da comunidade judaica, no Museu do Holocausto em Curitiba. Foto: DIvulgação.

"Pogrom" (1937), obra de Lasar Segall. Homenagem do Museu Lasar Segall nos 70 anos da libertação de Auschwitz.