Dilma: “Honramos as vítimas do Holocausto para construir um mundo melhor”

Dilma: “Honramos as vítimas do Holocausto para construir um mundo melhor”

  "Parabenizo a Conib pela escolha de Salvador para sediar este evento, uma cidade que rejeita a discriminação e respeita a diversidade. Lembrar na capital baiana as vítimas do Holocausto é lembrar que negros e judeus têm em comum também a diáspora. É ainda o momento de não silenciarmos contra crimes de intolerância e de construirmos mecanismos para evitar sua repetição. O Holocausto, que alguns negam, servirá sempre de paradigma contra a intolerância e contra essa violência bestial”, disse a Presidenta Dilma Rousseff na solenidade do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, neste domingo à noite, em Salvador. 


Na solenidade promovida pela Confederação Israelita do Brasil (Conib), em parceria com a Sociedade Israelita da Bahia (SIB), foi prestada uma homenagem especial aos negros vítimas do Holocausto e exibido um vídeo especialmente confeccionado pelo Projeto Israel na Web.

Claudio Lottenberg, presidente da Conib, lembrou os capítulos terríveis da História sofridos por negros, na escravidão; e judeus, no Holocausto. 

TOLERÂNCIA
Dilma Rousseff foi a principal oradora do evento, que teve a presença do governador Jaques Wagner, da Bahia; das ministras Maria do Rosário, da Secretaria Especial de Direitos Humanos, e Luiza Bairros, da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial; do assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia; dos presidentes da Conib, Claudio Lottenberg; da SIB, Maurício Szporer; e do Congresso Judaico Latino-Americano, Jack Terpins; do embaixador de Israel, Rafael Eldad; do presidente da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, babalaô Ivanir dos Santos; do reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, José Vicente; do cardeal arcebispo de Salvador, Dom Geraldo Agnelo; entre outras autoridades políticas, diplomatas, intelectuais, rabinos, líderes comunitários e sobreviventes do Holocausto.O governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, enviou à Conib seus cumprimentos pela solenidade.

A presidenta parabenizou a comunidade judaica baiana pela construção de uma nova sinagoga e de um centro cultural judaico em Salvador, que permitirá “ampliar e socializar” o conhecimento judaico junto à sociedade maior, fazendo jus à tradição do “povo do livro”. “Os judeus sempre nos propiciam uma experiência de paz – nenhum lugar com uma comunidade judaica florescente teve a intolerância como característica”, acrescentou Dilma.

Ela lembrou que o Brasil é signatário de todos os tratados internacionais de combate à discriminação e “um dos países de convivência social mais harmoniosa”, mas reconheceu que o racismo ainda precisa ser combatido. “Honrando as vítimas do Holocausto, estamos também criando as condições para construir um mundo melhor”, concluiu.

"CONSTRUIR" E "TIKUN OLAM"
Às imagens de destruição, do passado, que Claudio Lottenberg associa hoje aos negacionistas, como o ditador iraniano Mahmoud Ahmadinejad, ele contrapôs imagens de construção: recordou primeiramente o general americano Eisenhower, que previu, ao final da Segunda Guerra Mundial, que algum dia surgiriam tentativas de negar os crimes nazistas. Assim, ordenou aos alemães que moravam próximos aos campos, que os visitassem – para ver o que haviam feito; e aos soldados americanos, que também os visitassem – para ver por que haviam lutado.

No presente, Lottenberg relaciona a ideia de construir ao conceito judaico de Tikun Olam [melhorar o mundo]. Ele mencionou as ações do Estado de Israel em benefício de diversos países africanos; o acordo de cooperação da Conib com o Itamaraty, em benefício de países em desenvolvimento, como o Haiti; e a ação voluntária da comunidade judaica brasileira no combate à dengue e no auxílio às vítimas de enchentes.

O presidente da Conib concluiu, abordando o perigo representado no mundo atual pelos destruidores: “Falamos de destruição e de construção. Falamos de liberdades e de democracia. E falamos de um cenário global marcado por incertezas. Gostaríamos, nesse contexto, de lamentar a sobrevivência de líderes políticos empenhados mais na destruição do que na construção. Lamentar a sobrevivência de políticas que sustentem líderes que ousam, num desafio à comunidade internacional, pregar a destruição do Estado de Israel. Quando falamos de líderes que pregam a destruição, estamos falando do regime iraniano que, desde sua implantação, em 1979, defende a destruição de um país, Israel, criado por uma votação nas Nações Unidas, em assembleia presidida por um brasileiro como nós, o diplomata Oswaldo Aranha”. Leia, na íntegra, o discurso de Claudio Lottenberg.

A CHAMA DA MEMÓRIA
A cerimônia teve a apresentação do coral “Vozes do Holocausto”, composto em sua maioria por não judeus e dirigido pelo maestro Cícero Alves, que interpretou o “Hino dos Partisans” (os membros da resistência ao nazismo durante a Segunda Guerra) e a canção “Eternamente jovem”, ambas em iídiche. A presidenta Dilma Rousseff pediu um bis, e foi atendida, com a interpretação de uma canção africana. 

O rabino Ariel Oliszewski, da SIB, realizou uma bênção e tocou o shofar [instrumento feito de chifre de carneiro, e tocado em ocasiões solenes], em lembrança às vítimas do Holocausto. Posteriormente, foram acesas seis velas em homenagem aos seis milhões de judeus mortos no Holocausto. A primeira delas foi acendida por Ben Abraham e George Legmann, sobreviventes do Holocausto, e Igor Brachmans, do movimento juvenil judaico Habonim Dror; a segunda, pelas ministras Maria do Rosário e Luiza Bairros, e pelo General José Elito Carvalho Siqueira, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional; a terceira, por Luiz Mott, presidente do GGB – Grupo de Gays da Bahia; Silvia Cardoso dos Santos Cerqueira, presidente da Comissão Nacional de Promoção da Igualdade do Conselho Federal da OAB; e Ive Carolina Fiuza Figueiredo Milani, representante da Comunidade Bahá’i; a quarta, pela desembargadora Thelma Brito, presidente do Tribunal de Justiça da Bahia; a quinta, por Jorge Chediek, representante no Brasil do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento; a sexta, por Dilma Rousseff, Claudio Lottenberg e Ciriel, filho do presidente da Conib.

Veja trechos dos discursos de Dilma Rousseff e de Claudio Lottenberg e da apresentação do coral.

DIVERSIDADE E INTEGRAÇÃO
Para o embaixador de Israel no Brasil, Rafael Eldad, a data convida à reflexão sobre as lições do Holocausto. Ele afirmou que um Estado judeu soberano é a melhor garantia de que o genocídio não se repetirá.

Jaques Wagner, governador da Bahia, lembrou que as Nações Unidas, em 2001, declararam o tráfico de escravos como crime contra a humanidade – ao todo, o tráfico vitimou mais de 20 milhões de negros. Ele ponderou que o combate à intolerância deve ser feito de forma cotidiana, nas práticas política e pessoal.

“O Estado é um terreno fértil para os judeus”, disse Mauricio Szporer, líder da comunidade judaica baiana. Ele notou que os baianos elegeram por duas vezes um governador judeu [Jaques Wagner]; a Bahia ensina que “a democracia é a convivência na diversidade”.

O professor Luis Edmundo de Souza Moraes, da UFRRJ, doutor em História pela Universidade Técnica de Berlim e especialista em temas como negacionismo, Holocausto e neonazismo, abordou no evento a perseguição dos negros pelo nazismo. Para ele, a escolha de Salvador dá ao Dia Internacional do Holocausto um caráter integrador, aumentando a visibilidade, na sociedade maior, do crime cometido. 

Moraes considera que a democracia não é um valor suficiente, se a diversidade for apenas tolerada; ela deve ser algo intrínseco e necessário.

Veja na íntegra o discurso de Dilma. 

Leia, na íntegra, o discurso de Claudio Lottenberg.

Veja galeria de fotos da cerimônia em Salvador.