Debate sobre a imagem do judeu no Brasil lota a Hebraica, em São Paulo

Debate sobre a imagem do judeu no Brasil lota a Hebraica, em São Paulo

Em uma jornada que começou às 11h e só terminou às 19h do último domingo, na Hebraica de São Paulo, centenas de pessoas, incluindo representantes de dez estados brasileiros, dedicaram o dia a discutir a imagem do judeu na mídia e na sociedade brasileira e formas de atuação da comunidade judaica na internet, nas redes sociais e na mídia tradicional, além de debater a votação na ONU, em setembro, por um Estado palestino. O evento foi intitulado “Desatando Nós”.

Atraído pela alta qualidade dos palestrantes, pelo formato inédito do evento e pela atualidade dos temas, o público respondeu com grande interesse e, como não poderia deixar de ser quando há mais de dois judeus na sala – e houve mais de 500 ao longo do dia –, muita polêmica.

O evento foi promovido pela Confederação Israelita do Brasil (Conib), em parceria com a Federação Israelita do Estado de São Paulo (Fisesp) e a Hebraica. Vieram à capital paulista representantes das comunidades judaicas de Amapá, Bahia, Ceará, Distrito Federal, Minas Gerais, Pará, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

Fernando Lottenberg, secretário-geral da Conib, convoca os jovens da comunidade para participar com ainda mais força dos próximos eventos, pois os debates “têm a ver com o presente e futuro deles”. Para ele, os debatedores se mostraram muito bem preparados e capazes de tratar os temas de maneira informal, o que atrai os jovens. Ele considera que a oficina de Twitter [simultânea ao evento e coordenada por José Luiz Goldfarb] é um primeiro e ótimo passo para o uso de mecanismos virtuais de divulgação, em eventos futuros.

Para Alberto Milkewitz, diretor institucional da Fisesp, “os números do evento foram excelentes; e os debates, de muito bom nível e questionadores, com perspectivas que nem sempre circulam nos eventos comunitários”. Pensando nos próximos eventos, ele considera que “a linha de discussão sobre a construção da identidade judaica ainda deve ser explorada”.

O jornalista Jaime Spitzcovsky, diretor de Relações Institucionais da Conib, destacou a diversidade de origens, faixas etárias, linhas religiosas e opiniões do público.

No primeiro painel de debates, sobre formas de atuação na internet, os advogados Octavio Aronis (mediador) e Fernando Rosenthal lembraram o histórico de lutas da comunidade judaica contra os crimes raciais e, na era da internet, destacaram experiências bem-sucedidas da Confederação Israelita do Brasil e da Federação Israelita do Estado de São Paulo no combate a esses crimes. Eles afirmaram que a legislação brasileira é bastante abrangente tanto para os crimes nos meios eletrônicos como para os crimes raciais.

O jornalista Renato Aizenman, do Projeto Israel na Web, fez uma detalhada exposição das características das diversas plataformas da web e mostrou a importância de cada internauta na divulgação e irradiação de conteúdo, o que pode ser feito mesmo que se tenha pouco conhecimento ou habilidade com a tecnologia. Ilan Sztulman, cônsul-geral de Israel em São Paulo e especialista em estratégias de comunicação e diplomacia na internet, elogiou o trabalho do Israel na Web e ressaltou que esta atividade deve ser feita por profissionais.

No painel sobre o funcionamento da mídia tradicional, foram destacados os seus pontos – como a interpretação articulada – em comparação com a eletrônica. Os participantes, jornalistas Bruno Thys (mediador), Ivone Happ, Carlos Brickmann, Marcos Guterman concordaram que a grande imprensa brasileira trata o conflito do Oriente Médio sem parcialidade. Bruno Thys, diretor do jornal Extra, apontou que um dos principais papéis da imprensa escrita na era da internet deve ser a diferenciação de fato e boato. Marcos Guterman, editor da primeira página do Estadão, e Carlos Brickmann, especialista em gestão de crises, concordaram: o controle de qualidade é feito via profissionais capacitados.

Recebidos com frisson para o debate sobre a imagem do judeu no Brasil, o autor de telenovelas Walcyr Carrasco e a atriz Ana Lúcia Torre (a ‘iídiche mame’ da novela “Caras e Bocas”) mostraram grande satisfação em participar do painel, que também teve a participação do economista Gustavo Ioschpe. A mediação foi do jornalista Sergio Malbergier.

Walcyr contou que “Caras e Bocas” faz sucesso também no exterior e revelou seu choque pela agressividade latente contra os judeus revelada no recente episódio do metrô no bairro de Higienópolis, em São Paulo. A atriz confidenciou que seu papel na novela foi uma “experiência intensa” de judaísmo, que antes só conhecia por meio de “jantares e comidas”, e elogiou a prioridade dada pelos judeus à educação. Ioschpe, especialista em educação, revelou que um jovem rabino em Porto Alegre o despertou para a espiritualidade judaica. Ele considera que sua escolha profissional está ligada ao apreço dos judeus pela educação.

O quarto e último painel, que também superlotou o Espaço Adolpho Bloch, na Hebraica, trouxe os jornalistas Roberto Simon, repórter da editoria de Internacional do Estadão; David Tabacof, correspondente da revista Shalom em Israel; Michel Gherman, antropólogo do Núcleo de Estudos Judaicos da UFRJ, com mediação do jornalista Jaime Spitzcovsky. Lembrando que os Acordos de Oslo previam uma solução bilateral do conflito, Simon afirmou que a votação na Assembleia Geral da ONU, em setembro, por um Estado palestino, é uma forma de pressão adicional sobre Israel. Gherman recordou que a criação de um Estado palestino sempre foi bandeira do movimento sionista. Tabacof observou que o Irã e as recentes reivindicações sociais são também questões prementes para os israelenses.

A movimentada oficina de Twitter funcionou simultaneamente aos debates, informando os principais pontos em discussão à rede social e trazendo em tempo real a opinião dos internautas.