“Páscoa e Pessach: o momento da identidade da liberdade”, por C. Lottenberg.

O Pessach é conhecido como a Páscoa Judaica e é quando comemoramos o momento histórico da liberdade dos judeus que eram escravos do Faraó, no Egito.

A liberdade tem inúmeros sentidos dentro do contexto das relações sociais. Entendê-la como deixar de estar sob o domínio de um povo é só uma das formas. No contexto da evolução das relações, a liberdade pode ser muito mais que simplesmente a ausência de submissão, de servidão ou de determinação. A liberdade é a autonomia, a espontaneidade de um sujeito racional, um elemento qualificador do comportamento humano.

Para Descartes, age com mais liberdade quem melhor compreende as alternativas que precedem às escolhas. Portanto, a simples omissão da informação, a falta de transparência do conhecimento, a ausência do elemento comparativo, a rigor já criam de alguma forma caminhos para que as escolhas não aconteçam dentro da plena liberdade.

Isso nos leva a imaginar se o mundo contemporâneo é de fato livre, ou se escravidões ainda existem, mesmo que sem a relação de subjugação. Torna-se evidente que não, e esta relevância é apontada por Philip Pettit, em sua construção da Teoria da Liberdade, na qual traz consigo implicações práticas na consecução das finalidades de uma democracia, que se apoia sob a ótica da liberdade da vontade. Existe a liberdade da vontade para todos e em todos os lugares, ou será que muitos ainda são escravos sem se aperceber desta condição?

A Páscoa cristã celebra a ressurreição de Jesus Cristo. Depois de morrer na cruz, seu corpo foi colocado em um sepulcro, onde ali permaneceu por três dias, até sua ressurreição. É um dos dias mais importantes da religião cristã. Muitos costumes ligados ao período pascal originam-se dos festivais pagãos da primavera. Outros vêm da celebração do Pessach, a Páscoa judaica. É a morte para a vida, sendo que a última ceia partilhada por Jesus Cristo e seus discípulos narrada nos Evangelhos é considerada geralmente um Seder, o jantar de Pessach.

Leonardo Boff, em seu livro “Jesus Cristo Libertador”, faz um ensaio de Cristologia, pensado e escrito dentro do horizonte da experiência da fé no ambiente latino-americano. O Jesus Cristo Libertador fundou uma mística poderosa de solidariedade e até de identificação com os pobres, contra a sua pobreza. O objetivo deste ensaio é reforçar a inspiração evangélica do compromisso pela libertação. Quem sabe por isso, mesmo que de forma instintiva e sem o conhecimento filosófico, Jesus na essência tenha sido em sua época um lutador pelas liberdades.

O que desejo expressar é que o mundo, movido pelas diferenças, deixa de lado as semelhanças. Pessach e Páscoa não são formas diferentes de comemorar coisas distintas, mas podem e devem ser entendidos como objetos semelhantes. Quem não deseja liberdade? Quem não deseja o entendimento? Jesus era judeu. Portanto, quais são as diferenças tão evidentes que afastam as pessoas do entendimento?

Ao desejar a todos uma Feliz Páscoa ou um Pessach Sameach [uma Páscoa judaica feliz], chamo a atenção para nossas convergências e nossas semelhanças. Chamo a atenção para que tenhamos um real compromisso com a transparência, como um todo, e com o conhecimento, em particular. Chamo a atenção para que lutemos pelas liberdades plenas, tendo a consciência de que um mundo melhor nasce a partir disso. O resto pode até colaborar para melhorar, mas não para a essência do pacifismo.

Claudio L. Lottenberg
Presidente da Confederação Israelita do Brasil