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 Holocausto I

 
Por: Giulio Sanmartini
 
A palavra holocausto, de origem grega, significando “queimado inteiramente”, passou a designar, depois da Segunda Guerra Mundial, o massacre de judeus nos campos de concentração nazistas. O mês de janeiro (27), marcou os 60 anos da liberação do pior desses campos: Auschwitz.
 
A primeira manifestação de antissemitismo, que me vem à lembrança, apesar de na época desconhecer a palavra e o fato, aconteceu quanto tinha 8 anos e estudava no Colégio Salesiano do Rio de Janeiro. Durante o recreio, não sei por qual motivo xinguei um colega de filho da p..., o padre conselheiro me pegou em flagrante e fui levado a seu gabinete. Para me justificar contei-lhe que o outro havia me xingado antes, o padre sem se abalar me deu um conselho: — Quando tiver que xingar alguém, chame-o de judeu.
 
Depois, durante minha adolescência fui para um colégio laico onde estudantes de todas as religiões misturavam-se; mais tarde um pouco, tive até uma namorada judia, mas aí a coisa era ao contrário, tínhamos que fazê-lo escondido, pois sua família não poderia saber que ela tivesse ligação afetiva com um “gentio” (aquele que não professa a religião judaica).
 
Durante os 50 anos que morei no Brasil, jamais senti no povo um espírito antissemita, mas aqui na Europa a coisa mudou. Penso que seja algo, injustificável, mas histórico. Os hebreus sempre foram tidos pela Igreja Católica como deicidas e discriminados; o primeiro documento antissemita data da segunda metade do século VII, durante a dominação longobarda (população germânica), no que fora o Império Romano do Ocidente. O rei Pertarito, católico fanático e com tal intensidade antissemita, converteu pela força, todos os hebreus, ao cristianismo. A coisa foi se espalhando pelos séculos como uma mancha de óleo; o grande assassinato de hebreus, acusados de responsáveis pela Peste Negra, no século XIV; a “Santa” Inquisição dos séculos XVI e XVII; nos países eslavos os “pogroms”, palavra russa que pode ser traduzida como massacre, os hebreus eram massacrados e saqueados, pois lhes atribuíam a pobreza da população; até chegar-se à Solução Final nazista, que durante a Segunda Guerra matou mais de 6 milhões de judeus no horror do holocausto.
 
O antissemitismo na Europa está recomeçando prepotentemente. Sinagogas são queimadas na França, cemitérios hebreus são destruídos na Suécia, outro dia mesmo, um príncipe inglês, neto da Rainha, foi a uma festa fantasiado de nazista; um time de futebol holandês, ligado historicamente aos judeus, resolveu tirar qualquer sinal dessa religião para evitar ser vaiado pelos adversários. Conversando em um grupo de intelectuais belluneses, tive que ouvir de um deles, a seguinte imbecilidade: “Os judeus têm que parar com essa coisa de holocausto, já passou”.
 
Os europeus, agora movidos por um antiamericanismo irracional, associam o Estado de Israel com os Estados Unidos, nas manifestações com qualquer tipo de escopo. São queimadas as bandeiras dos dois países por pessoas, que para mostrar o antissemitismo usam o símbolo da OLP (Organização de Libertação da Palestina), o “kefiah” como lenço de pescoço, trata-se daquela cobertura de cabeça que caracterizou Yasser Arafat. Mas os piores de todos são os chamados “negativistas”, aqueles que negam a existência da “shoah”, (palavra hebraica que pode ser traduzida como catástrofe, que muitos preferem usar ao invés de holocausto). Afirmando que os campos de concentração e extermínio não existiram, que tudo foi propagado pela imprensa mundial nas mãos dos judeus.
 
Existem minorias religiosas em países onde o fundamentalismo está exacerbado. Pessoas suicidam-se “gloriosamente”, como bombas humanas, contanto que levem junto com elas os que professem outros credos.
Nós, seres humanos que nos julgamos civilizados, não podemos permitir que seja esquecido o extermínio de um povo por professar uma religião diferente daquela da maioria dos países onde viviam. No passado próximo foram os judeus da Europa, hoje não sabemos quem será.
 
Para que não seja esquecido o horror da “shoah”, vamos publicar uma série de artigos com depoimentos de pessoas que viveram o fato. O primeiro é de Oskar Grönig, hoje com 85 anos.
 
 
Os que negam Auschwitz ouçam-me, eu estava lá, mas do lado dos carcereiros.
 
Oskar Gröning entrou para a Juventude Hitlerista quando os nazistas chegaram ao poder em 1933. Estava convencido que ajudaria a Alemanha a livrar-se de culturas estranhas. Trabalhava há pouco tempo num banco quando começou a guerra, mas logo se alistou na SS (Schutz-Staffel em alemão, ou seja, departamento de defesa, a milícia armada do partido nazista). Dois anos depois foi designado para o campo de Auschwitz, seu trabalho era contar o dinheiro confiscado aos prisioneiros hebreus. Nessa época lhe disseram: “Nos livraremos dos judeus que não estejam aptos ao trabalho”. Continuou contando dinheiro, até que um companheiro o chamou para conhecer os fornos crematórios, onde divertia-se em ver que, quando os cadáveres começavam a queimar estremeciam no momento que o ar dos pulmões era expelido e que a parte sexual dos homens, tinham um improvisa ereção.
 
Oskar sentiu-se mal e foi até seu superior pedir transferência para as primeiras linhas de combate. Mas o pedido lhe foi negado e seu comandante fez-lhe ver que ele tinha jurado fidelidade, e que os hebreus eram os verdadeiros inimigos da Alemanha, concluindo: “Caro Gröning, o que você quer fazer? Estamos todos no mesmo barco. Empenhamo-nos em aceitar essa missão sem pensar”.
 
Em 1944 Gröning conseguiu sua transferência. Ferido em batalha, no ano seguinte rendeu-se às tropas inglesas. No questionário que lhe foi dado a preencher, omitiu ter trabalhado em Auschwitz. Hoje, ele tenta minimizar o fato com uma impressionante ingenuidade: “Os vencedores têm sempre razão, nós sabíamos que as coisas acontecidas em Auschwitz nem sempre estavam dentro das regras dos direitos humanos”.
 
Finda a guerra, organizou sua vida e seguiu normalmente. Interessante de se notar nesse fato, é que se pôde ter sido da SS, ter trabalhado em Auschwitz, ter sido testemunha do processo de extermínio, ter contribuído para a Solução Final, não foi considerado “culpado” pelo Estado alemão ocidental do após guerra.
 
Tudo teria ficado desconhecido não fosse um pequeno incidente. Oskar Gröning, ao aposentar-se se dedicou à filatelia, e um dia conversando com um conhecido que praticava o mesmo hobby, ouviu deste: “Não lhe parece terrível que o governo declare ilegal qualquer coisa que se diga contra a matança de milhões de judeus em Auschwitz”? Ele achava inconcebível que se pudessem queimar tantos corpos. Oskar ficou pasmado, mas nada disse. Procurou um jornalzinho “negacionista” que lhe havia sido indicado pelo tal amigo e escreveu um comentário irônico, enviando-o a este. A sua denúncia foi impressa em uma revista neonazista e ele começou a receber telefonemas e cartas ameaçadoras, de gente que queria demonstrar que Auschwitz era uma grande alucinação, porque jamais tinha acontecido.
 
Nem quero perguntar por que Oskar Gröning demorou tanto tempo para dizer aquilo que testemunhara e somente o fez por um motivo acidental, mas não há dúvida de uma coisa: o antissemitismo está bem vivo na Europa.
 
Texto de apoio
Laurence Rees – Chi nega Auschwitz mi ascolti... – Corriere della Sera – 13/1/2005.
 
PS: O próximo artigo tratara do depoimento de um soldado da Armada Vermelha Soviética, que estava entre os do primeiro grupo que chegou a Auschwitz.
 
* Giulio Sanmartini é natural de Belluno, Itália (1944). Emigrou para o Brasil em 1946 onde viveu até 1996, quando retornou a Belluno. Foi pesquisador (trabalhou com Antônio Houaiss e com o astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas Mourão); historiador, membro dos institutos Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro e também do Rio Grande do Norte. Últimos livros publicados: Cidade do Rio de Janeiro, curiosidades na história de sua fundação (1998) e Casa de Bragança – Casa de Habsburgo, origem da Família Imperial Brasileira (1998). Ambos fazem parte do acervo da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos. Jornalista, atualmente colabora com o Observatório da Imprensa, Sanatório da Imprensa e Visão Judaica. É editor de Argumento (http://argumento.bigblogger.com.br/).
 
 
ONU estabelece o Dia Internacional em honra às vítimas do Holocausto
 
Será em 27 de janeiro, data de libertação de Auschwitz-Birkenau
 
No dia 27 de janeiro de 1945 o Exército soviético libertou o campo de Auschwitz-Birkenau e uma resolução da ONU, composta por 191 países-membros, vai preservar ativamente os cenários do horror, inclusive os campos de concentração, cemitérios, campos de trabalhos forçados e prisioneiros dos nazistas. Além disso, lançará as bases de um amplo programa educativo.
 
A Assembléia Geral das Nações Unidas adotou a resolução como o Dia da Recordação do Holocausto, e instou a todas as nações a desenvolverem as vias adequadas para manter viva a sua memória, de forma que as futuras gerações ajudem a prevenir similares atos de genocídio.
 
Introduzida por Israel e co-patrocinada pela maioria dos Estados membros, a resolução estabelece os Estados membros desenvolvam programas educativos que instruirão as futuras gerações sobre os horrores do genocídio, e condenem todas as manifestações de intolerância religiosa, incitação, ou violência contra as pessoas ou comunidades baseadas em sua origem ou crença étnica.
 
O presidente da Assembléia Geral da ONU, Jan Eliasson, destacou que a memória do Holocausto deve ser “uma advertência historicamente unificada; não somente recordar os graves crimes cometidos na história, mas também para reafirmar nossa reserva com o objetivo de prevenir a repetição de tais crimes”.
 
“Na qualidade de israelense, judeu, ser humano e filho de vítimas do Holocausto, sinto-me emocionado e privilegiado por presenciar a aprovação dessa histórica resolução hoje” - disse o embaixador de Israel junto à ONU, Dan Gillerman.
 
Ele assinalou que o Holocausto “nos colocou cara-a-cara com toda a capacidade do homem de ser desumano com seus semelhantes” e que serviu como um “impulso crítico” para o desenvolvimento dos direitos humanos, o rascunho das convenções internacionais sobre genocídio, e o estabelecimento das Nações Unidas.
 
O dia 27 de janeiro fica assim reconhecido de forma oficial como um dia de recordação das vítimas do Holocausto em vários países, entre os quais se incluem o Reino Unido, Itália e Alemanha, porque se trata do dia em que um avanço do Exército soviético libertou o maior dos campos nazistas, o de Auschwitz-Birkenau, na Polônia. “Como a geração de sobreviventes e libertadores do Holocausto está se reduzindo, a lembrança diminui, e a educação deve seguir adiante”, declarou Gillerman.
 
A resolução foi aprovada por aclamação depois de dois dias de pronunciamentos,
O Holocausto era quase totalmente ignorado até janeiro passado, quando o órgão realizou uma sessão para celebrar a libertação pela Rússia, 60 anos atrás, do campo de concentração de Auschwitz. No total, 104 países do mundo todo patrocinaram a nova resolução. A exceção foram os países do Oriente Médio. Várias nações islâmicas, entre as quais o Egito, a Indonésia e a Malásia, disseram ser favoráveis à resolução, mas acrescentaram que as atrocidades cometidas contra os cristãos e os muçulmanos deveriam receber uma atenção equivalente.
 
O embaixador da Jordânia junto à ONU, príncipe Zeid al-Hussein, classificou o Holocausto de “o crime de maiores proporções” realizado em solo europeu, por europeus e contra europeus. Mas, segundo o príncipe, o episódio não deveria ser usado como justificativa moral para a “dominação continuada de um povo sobre outro”, uma referência clara a Israel e aos palestinos.
 
A resolução, proposta inicialmente pelos EUA, Israel, Rússia, Austrália e Canadá, rejeita qualquer tentativa de negar o Holocausto.
O embaixador alemão junto à ONU, Gunter Pleuger, chamou o Holocausto de o “capítulo mais negro da história da Alemanha”. 
 
Questões para refletir
 
Charles Krauthammer *
 
Quando algo ocorre pela primeira vez em 1.871 anos, vale a pena registrá-lo. Em 70 a.e.c e de novo em 135, o império romano sufocou brutalmente as revoltas da Judéia, destruindo Jerusalém, matando centenas de milhares de judeus e enviando centenas de milhares mais à escravidão e ao exílio. Durante quase dois milênios, os judeus vagaram pelo mundo. E agora, em 2006, pela primeira vez desde então, de novo existem mais judeus vivendo em Israel — o Estado sucessor da Judéia — que em nenhum outro lugar da Terra.
A população judaica de Israel acaba de ultrapassar os 5,6 milhões. A população judaica dos Estados Unidos beirava os 5,5 milhões em 1990, caiu ao redor de 5,2 milhões 10 anos depois e se encontra em acentuado declive que, por causa das baixas taxas de fertilidade e os elevados níveis de assimilação, reduzirá essa cifra à metade até meados do século.
Quando 6 milhões de judeus europeus foram exterminados no Holocausto, só restaram dois centros importantes de vida judaica: Estados Unidos e Israel. Esse sistema binário permanece até hoje, mas se acaba de alcançar um ponto delicado. A cada ano, enquanto a população judaica continua crescendo em Israel e declinando na América (e no resto da Diáspora), Israel se torna cada vez mais, como no tempo de Jesus, no centro do mundo judaico.
Uma restauração épica é a mais improvável. Para lembrar somente uma conquista destacada no retorno: o hebraico é a única língua “morta” da história da que se tem notícia que foi devolvida à vida cotidiana como linguagem viva de uma nação. Mas existe um preço, e um perigo nesta transformação. Altera radicalmente as perspectivas da sobrevivência judaica.
Durante 2000 anos, os judeus encontraram proteção na Dispersão — não proteção às comunidades individuais, que eram rotineiramente perseguidas e massacradas, porém, proteção ao povo judeu em conjunto. Dizimados aqui, po­diam sobreviver ali. Podiam ser perseguidos na Espanha e encontrar refúgio em Constantinopla. Podiam ser massacrados no Reno durante as Cruzadas ou na Ucrânia durante a Insurreição de Chmielnytsky de 1648-49 e sobreviver ainda assim no resto da Europa.
Hitler pôs fim a essa ilusão. Demonstrou que o antissemitismo moderno casado com a tecnologia moderna — linhas ferroviárias, burocra­cias disciplinadas, câmaras de gás que matam com eficácia industrial — podia juntar um povo disperso e “concentrá-lo” para a aniquilação.
O estabelecimento de Israel foi uma declaração judaica a esse mundo que permitiu que o Holocausto tivesse lugar — depois que Hitler deixou claro perfeitamente suas intenções — de que os judeus recorriam daí em ­diante à autoproteção e à autodependência. E assim, construindo um exército judeu, o primeiro em 2000 anos, prevaleceram em três grandes guerras de sobrevivência (1948-49, 1967 e 1973).
Mas numa cruel ironia histórica, fazê-lo exigiu concentração — colocar todos os ovos no mesmo cesto, um pequeno território estendido junto ao Mediterrâneo, com 12,7 quilômetros de largura em seu ponto médio. Um alvo tentador para aqueles que finalizariam o trabalho de Hitler.
Seus sucessores vivem hoje em Teerã. O mundo prestou enorme atenção à declaração do presidente Mahmoud Ahmadinejad de que Israel tem que ser destruído. Prestou-se menos atenção aos pronunciamentos dos líderes iranianos sobre como Israel será “eliminado mediante uma tormenta”, como prometeu Ahmadinejad.
O ex-presidente Ali Akhbar Hashemi Rafsanjani, o presumido moderado desse bando criminoso, explicou que “o uso de uma bomba nuclear em Israel não deixará nada sobre o terreno, enquanto que só prejudicaria algo no mundo do Islã”. A lógica é impecável, a intenção clara: um ataque nuclear destruiria na prática o pequeno Israel, enquanto que qualquer resposta lançada por um Israel moribundo não teria um efeito importante sobre uma civilização islâmica de um bilhão de pessoas que se estende da Mauritânia à Indonésia.
Enquanto se lança à corrida para obter armas nucleares, o Irã deixa claro que se tiver problemas, os judeus serão os primeiros a sofrer. “Anunciamos que aonde quer [no Irã] que a América cometa qualquer equívoco, o primeiro lugar para o qual apontaremos será Israel”, dizia o general Mohammed Ebrahim Dehghani, um importante comandante da Guarda Revolucionária. Hitler apenas foi ligeiramente mais direto ao anunciar sete meses antes de invadir a Polônia que, se houvesse outra guerra, “o resultado será... a liquidação da raça judaica na Europa”.
Semanas atrás, Bernard Lewis, o decano dos estudos islâmicos da América, que acaba de cumprir 90 anos e que recorda bem o século 20, confessou que pela primeira vez se sente de novo em 1938. Não precisou acrescentar que em 1938, ante a iminente tormenta — um inimigo do Ocidente agressivo e fanático abertamente declarado e completamente determinado contra os judeus — o mundo não fez nada.
Quando nos próximos anos os mulás do Irã adquirirem seus desejados mísseis, a cifra de judeus em Israel terá alcançado os 6 milhões. Nunca mais?
 
* Charles Krauthammer é jornalista e conhecido colunista nos EUA e no Canadá. Psiquiatra, ele tem vários trabalhos e pesquisas publicadas na área acadêmica. No campo da imprensa, escreve regularmente para o jornal The Washington Post e ganhou o prêmio Pulitzer em 1987. Suas posições neoconservadoras têm aparecido em diversos veículos de imprensa e freqüentemente colabora com o noticiário da rede Fox de TV. Publicado originalmente em espanhol em El Iberoamericano.